Fé Shojo – 1ª Parte

Actualmente, quando se critica a religião, ouve-se muito que os líderes espirituais e sacerdotes deveriam ter uma alimentação frugal, vestimentas e moradias modestas, andar a pé ou usar transporte público como trem, ônibus etc., vivendo da forma mais simples possível.

É facto que, antigamente, para divulgarem os ensinamentos, os precursores e fundadores saíam pregando pelas ruas sozinhos, calçando sandálias de palha. Por vezes, dormiam ao relento, retiravam-se nas montanhas, faziam jejuns, meditavam debaixo de cascatas, experimentavam todos os tipos de sofrimentos e sacrifícios. Outras vezes, eram atirados na prisão ou exilados em ilhas longínquas. Observando isso hoje, é impossível não nos comover ao pensar nos sofrimentos e nas dificuldades que eles viveram. Entretanto, só conseguiram estender suas doutrinas a uma localidade ou a uma região restrita. A maioria delas, após a morte desses precursores e fundadores, se expandiu somente depois de várias gerações. Dessa forma, comparando-se aos dias atuais, essas constantes adversidades enfrentadas estão além de nossa imaginação.

Por outro lado, tais factos permanecem gravados na mente das pessoas; por isso, é natural que elas tenham uma visão equivocada sobre as novas religiões. Logicamente, as religiões caracterizadas por tais práticas são de fé shojo. Elas têm origem no bramanismo, que surgiu na Índia, antes do nascimento de Buda Sakyamuni, e cujos ensinamentos tinham por objetivo a Iluminação por meio de práticas ascéticas. Segundo dizem, naquele país, ainda existe um pequeno número de bramanistas que conseguem realizar milagres manifestando um considerável poder espiritual. Creio que o jejum praticado pelo famoso Mahatma Gandhi (1869–1948) talvez fosse uma decorrência de ele ter professado o bramanismo quando jovem.

Há uma história interessante sobre o motivo que levou Buda Sakyamuni a pregar os oitenta e quatro mil sutras. Ao analisar a situação da Índia naquele tempo, ele percebeu que, devido ao fato de o bramanismo ser predominante, considerava-se que a Iluminação só podia ser alcançada por meio da ascese e que este era o verdadeiro caminho da fé. As pinturas e as estátuas rakan, que encontramos hoje em diversos lugares do Japão, retratam as práticas ascéticas dos bramanistas. Por meio dessas obras, podemos imaginar como elas eram. Não suportando ver semelhante situação, Buda Sakyamuni, com sua grande misericórdia, revelou uma forma para as pessoas obterem a Iluminação sem precisar recorrer a tais práticas: os sutras budistas. Segundo ele, a simples recitação dos sutras seria o bastante. Obviamente, o povo se alegrou com isso e passou a admirá-lo e a reverenciá-lo como o mais respeitável de todos os homens santos. Foi assim que o budismo dominou a Índia. Podemos dizer que essa foi a realização mais relevante de Buda Sakyamuni entre suas atividades de salvação.

Religiões shojo são anacrônicas

Diante do exposto, compreende-se o quanto a fé shojo, que se baseia em práticas ascéticas, contraria a vontade e a grande misericórdia de Buda Sakyamuni. Esse tipo de fé tende ao bramanismo, que foi objeto da salvação realizada por ele. Creio que, do paraíso búdico, ele está lamentando essa situação. Assim, é importante saber o quanto a fé shojo é equivocada e anacrônica.

Por outro lado, no que se refere à difusão religiosa, observamos que aquilo que antigamente se levava dez anos para conseguir, hoje pode ser feito em apenas um dia, graças ao avanço tecnológico da imprensa e dos meios de transporte. O correto, por conseguinte, é adequar-nos à época em que vivemos, utilizando-nos de todos os recursos que a civilização moderna nos oferece. Se apenas a religião continuar persistindo nos métodos antigos, obviamente não conseguirá atingir seus verdadeiros objetivos. Isso se evidencia pelo fato de que as religiões tradicionais estão cada vez mais anacrônicas. (…)

11 de março de 1950

Alicerce do Paraíso vol. 2

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