DÍVIDAS

Posso dizer que a meia-idade foi um período de minha árdua batalha contra as dívidas, que durou cerca de vinte anos. Ainda me lembro de meus 35 ou 36 anos, quando tive um grande fracasso que motivou uma prolongada relação com as dívidas. A partir de então, ansiei por romper esse vínculo de qualquer forma; mas, quanto mais eu me desesperava, mais elas aumentavam. Por último, alguns agiotas tomaram meus bens. As apropriações ocorreram umas seis ou sete vezes. Para quem nunca passou por isso, é um pouco difícil de entender; mas afirmo que é um terrível tormento. Os oficiais de justiça, por sua vez, chegam e colam uns adesivos diferentes nos móveis que aparentam possuir certo valor. O que mais me incomodou foram aqueles colados nas gavetas das cômodas, visto que me impossibilitavam tirar as roupas de lá. Aliás, os oficiais advertiram que a violação desses adesivos constitui infração penal. O maior constrangimento foi a sensação de impotência.

Além disso, fui réu em inúmeros julgamentos e, no decorrer de mais de dez anos, apelei aos credores para que fizéssemos uma negociação. Sem dúvida, o sofrimento causado por essa dívida foi enorme. Isso porque eram inúmeros agiotas; um deles, inclusive, tinha grande fama de ser perverso. Por esse motivo, a situação não era nada fácil. Ao adiar o prazo das notas promissórias, cheguei a pagar de 0,1 a 0,5 por cento de juros diários. Ao mesmo tempo, tive a falência requerida pelos credores, outra experiência difícil de compreender para quem nunca a vivenciou, mas que é realmente desagradável. Em primeiro lugar, não se pode mais realizar operações bancárias, e o nome passa a constar nos registros dos serviços de informação e de análise de crédito. Naquela época, eu era atacadista de miudezas e desenvolvia meus negócios amplamente. No entanto, com a falência, só podia fazer transações com dinheiro vivo. A maior dificuldade foi não poder utilizar as promissórias. E ainda: todas as correspondências eram entregues primeiro ao administrador judicial, que as conferia uma por uma, para depois chegar às minhas mãos, o que era extremamente desconfortável.

Desse modo, quitei as dívidas depois dos 60 anos. Melhor dizendo, vim lutando para saldá-las durante cerca de vinte e cinco anos. Li em certo livro uma explicação do falecido Sr. Kihachiro Okura, que viveu mais de noventa anos, sobre o segredo da longevidade: “Se quiserem ter vida longa, não façam dívidas, pois não existe nada pior para encurtar a vida.” Por essas palavras, provavelmente perdi um considerável tempo de minha existência por motivo das dívidas.

Colectânea Série Jikan, vol. 5, em 30 de agosto de 1949
Colectânea Alicerce do Paraíso Vol. 7

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