A VIDA E A MORTE

Desde a antiguidade, não houve questão que levantasse tanta discussão quanto a morte. Pessoas comuns, sábios e santos muito debateram, questionaram e se esforçaram no sentido de esclarecê-la. Torna-se desnecessário dizer que não existe nada mais temível, pois ela tem o poder de ceifar qualquer esperança ou felicidade. Deixando de lado as exceções, na maioria das vezes, ela é causada pela circunstância inevitável denominada doença. Se acontece antes dos noventa anos, é motivada por alguma enfermidade e, portanto, constitui uma morte antinatural.

Quando o ser humano cumpre seu tempo de vida, não morre por motivo de doença, mas começa a enfraquecer naturalmente até que, por fim, faz a passagem. A morte natural é livre de dores e sofrimentos e, em grande parte dos casos, a própria pessoa a pressente. Dessa forma, é evidente que a morte não é natural quando acompanhada de padecimento. Frequentemente comenta-se que uma pessoa teve uma longa vida quando, na realidade, morreu prematuramente. Todavia, isso são apenas palavras de consolo e resignação.

Há o caso do famoso monge zen-budista Etsuzan Tosu (1824–1934), falecido recentemente, aos 109 anos de idade. Pouco antes de morrer, ele previu que o momento se aproximava e, reunindo dezenas de pessoas entre familiares e amigos, dirigiu suas últimas palavras a cada um. Ao chegar a hora, morreu serenamente, sem qualquer sofrimento. Trata-se, portanto, de um formidável exemplo de morte natural.

Há um trágico motivo por que a maior parte das pessoas da actualidade têm a vida encerrada de modo não natural e por que os indivíduos que falecem de morte natural são tão poucos quanto as estrelas no amanhecer. Futuramente, pretendo escrever sobre o motivo.

A Vida e a Morte — AP, Vol. 7

Publicado em Ensaios Clínicos, em 1939

 

Partilhar amor

Procura mais alguma coisa?

Relacionados:

Reminiscência do dia
Ensinamento | Estudo Diário