Instinto E Abstinência

Segundo o conhecido filósofo alemão, Friedrich Wilhelm Nietzsche 76, o ser humano já nasce com vários instintos, que é praticamente impossível conter pela força humana. Esses instintos assemelham-se ao predestino, em relação ao qual nada pode ser feito. À primeira vista, até poderíamos concordar, mas a explicação apenas nesses termos dá a entender que a imoralidade também é admissível, o que vem a ser uma ideologia perigosa. Em se tratando de intelectuais, poderão encará-la como uma teoria, mas do nosso ponto de vista, como religiosos, de forma alguma podemos aceitá-la. No entanto, existem teorias completamente contrárias às de Nietzsche que vêm sendo praticadas desde os tempos antigos. Entre as religiões, algumas, por exemplo, adotam uma visão pecaminosa sobre os instintos. Por esse motivo, seus seguidores praticam o asceticismo de maneira radical, acreditando que o sofrimento decorrente é sagrado e até o consideram uma forma de aprimoramento e disciplina pessoal.

Ao observarmos objetivamente essa situação, ao mesmo tempo em que não podemos aceitá-la, notamos que são justamente essas religiões que se apegam aos seus princípios intransigentemente, não se integrando à sociedade. Podemos citar o islamismo, o bramanismo da Índia, o puritanismo cristão etc. como sendo os mais expressivos dentre esse tipo de fé. No Japão, são vistas poucas seitas nos moldes que citei, mas restam algumas muito similares. Comparando essas duas correntes contraditórias, não podemos dar ganho a nenhuma das duas, pois ambas tendem ao extremismo. A respeito disso, Deus nos tem apresentado um rígido padrão de referência. Assim sendo, tal erro deveria ser facilmente percebido, mas pela maneira leviana como as pessoas tendem a encarar a questão, parece que não chegam a compreendê-la. Em suma, trata-se da “Teoria do Caminho do Meio”, preconizada por Confúcio. Tenho feito considerações a respeito dessa teoria sob as mais variadas formas; portanto, acredito que os fiéis já estejam suficientemente cientes. O facto é que, como disse o referido sábio chinês, “falar é fácil, fazer é difícil”.

Não obstante, o Caminho do Meio, em verdade, é o verdadeiro caminho da fé assim como a Iluminação espiritual pregada por Buda Sakyamuni. Por essa razão, vou explicar a respeito da maneira mais simples possível. Primeiramente, tomemos um exemplo comum: o clima nas estações do ano. Ninguém gosta da época de frio intenso nem do calor excessivo, mas todos acham extremamente agradável e ficam contentes com a temperatura moderada da primavera e do outono. Desde os primórdios, o budismo realiza a Cerimônia do Equinócio, o Higan-e 77, na primavera e no outono. Nesta época, o clima mostra o estado real do Gokuraku Jodo, o mundo paradisíaco dos budistas.

Contudo, o que eu estou querendo falar é sobre nossa conduta de vida. Devemos, principalmente, evitar os extremos a qualquer custo e em todas as ocasiões. No entanto, a realidade é que o ser humano tende a optar por um lado ou pelo outro, o que não deveria ocorrer. Podemos dizer que a causa do fracasso geralmente se encontra neste ponto. Por outro lado, há casos em que precisamos decidir, o que é realmente muito difícil. Se aprofundarmos esse ponto, quando decidimos que não vamos decidir, tal atitude já constitui uma decisão.

Por conseguinte, não devemos decidir nem deixar de fazê-lo e, muito menos, devemos ficar no meio do caminho. Parece-nos uma situação realmente ambígua, mas esta é uma lei rigorosa que torna o mundo interessante. Em suma, basta que a pessoa alcance o estado de livre adaptação à situação de cada momento [ohen-jizai] e o estado de liberdade e desimpedimento [jiyu-mugue]. O importante é não ficar preso a nada. Outra denominação da divindade Kanzeon Bossatsu 78 é Mugueko Nyorai (Deus da Luz Desimpedida), cujo sentido é não ficar preso a nada. Nas atuais questões políticas e ideológicas, tem ocorrido o mesmo. O erro está em rotular os pensamentos de esquerda ou direita, capitalista ou comunista. Isto porque, tal definição já está sendo limitadora e, em decorrência disso, os confrontos são inevitáveis. Nos tempos actuais, algo insignificante, infalivelmente, dará origem a problemas, e esta é a razão da existência de conflitos em toda parte. Vemos o mesmo tipo de situação nas relações internacionais, em que os desentendimentos não têm fim. É compreensível que esses choques venham sendo inevitáveis até hoje, pois graças a eles é que a cultura material alcançou o desenvolvimento actual.

Contudo, daqui para frente, o quadro se tornará diametralmente oposto e isso significa que será preciso mudar a mentalidade. Em outros termos, finalmente, está prestes a chegar a era da verdadeira civilização. Basta que avancemos tomando como critério o clima ameno da primavera e do outono. Esta é a característica da nossa religião messiânica.

Jornal Eiko nº 188, 24 de dezembro de 1952

Vol. 4 pág. 142

 

76 Nietzsche: Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844–1900) se propõe a fazer uma crítica dos valores morais que compõem a cultura. Ele coloca em questão esses valores e sugere transformá-los por completo. Sua filosofia constitui uma exaltação de todos os valores vitais e é uma crítica, – especialmente da tradição filosófica e do cristianismo – que, segundo ele, levaram o homem à submissão e o impediram de se desenvolver como um espírito livre. Centralizou sua doutrina em quatro pontos fundamentais: a vontade de potência, o super-homem, a auto-superação da moral e o eterno retorno.

77 Como o equinócio é o momento em que dia e noite têm a mesma duração, acredita-se que, nesse momento, o Nirvana encontra-se mais próximo e o ato de “cruzar para a outra margem” (a margem da Iluminação) fica mais fácil.

78 Vide nota de rodapé no 35 no Ensinamento “Novamente a respeito de Bergson”.

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