Abstinência

Desde os tempos antigos, pensava-se que, para destacar-se como religioso, era necessário levar uma vida de abstinência, chegando-se mesmo a pensar que esse era o melhor meio de compreender e intuir a Verdade, e polir a alma. No entanto, eu discordo e vou expor minha opinião de forma compreensível.

Tudo na natureza existe em favor do ser humano. Observem as flores da primavera, os bordos do outono, o cantar dos pássaros e dos insetos, a beleza dos rios e das montanhas, o encanto das noites de luar, as fontes de águas termais etc. Devemos pensar no porquê da existência de tudo isso.

Se Deus não criou todas essas coisas para o deleite do ser humano, qual terá sido a outra possível razão?

As belíssimas vozes dos cantos, a dança, as obras literárias e artísticas etc. evidentemente satisfazem os próprios autores como também seus apreciadores. Não apenas isso: os alimentos deliciosos, as construções arquitetónicas, os jardins, as vestimentas etc., além de suprirem as necessidades da vida humana, contêm elementos para realmente nos comprazer. Ao saborearmos os alimentos e as bebidas, nosso corpo se nutre e mantemos a vida. As vestimentas, os alimentos e as residências poderiam ser simples e sem beleza, se visássemos apenas prover nossas carências. Da mesma forma, é dispensável dizer que os filhos não são gerados apenas por uma questão de necessidade.

Uma vez que Deus concedeu ao ser humano a faculdade de apreciar a Grande Natureza e as criações humanas, o certo é desfrutá-las. A abstinência, que faz a criatura rejeitar tudo isso e contentar-se apenas com o essencial para a subsistência, é um pensamento que nega a profunda benevolência divina.

Por outro lado, as classes privilegiadas de até então careciam de altruísmo, devotavam sua atenção apenas ao divertimento próprio ou ao de seus familiares, sem considerar o próximo e a sociedade. Era parca a manifestação do sentimento de amor pela humanidade e o desejo de compartilhar da alegria com as pessoas em geral, o que constitui um monopólio das bênçãos de Deus. Creio que abrir os grandiosos jardins e expor as obras de arte pertencentes aos magnatas, enfim, proporcionar a apreciação de ambos junto ao povo corresponde à Providência Divina.

Vejamos a vida dos antigos santos. Eles levavam uma vida de abstinência em que a alimentação e as vestimentas eram extremamente simples. Doavam suas preciosas vidas em nome do lema “um fundador religioso veste roupas feitas de papel a vida inteira”. Penso que isso contraria as bênçãos divinas. No entanto, quem não percebe esse ponto, lamentavelmente, tende a não valorizar os religiosos que não praticam a abstinência. Como já disse, sou contra essa prática e, por essa razão, vivo do mesmo modo que as pessoas em geral. Penso que isso corresponde à Vontade Divina.

O Paraíso Terrestre, portanto, é um mundo de elevado padrão de vida para a humanidade em que prosperam a arte e outros bons divertimentos.

Além disso, na trilogia Verdade, Bem e Belo, a Verdade significa a ausência da falsidade, o Bem é a prática de ações correctas e o Belo se refere às coisas belas. Na vida de abstinência, existe o Bem, mas não há Verdade nem Belo. Por esse motivo, sinto que essa forma de viver obstrui a evolução da cultura.

É preciso pensar sobre a realidade da Índia que, por tender apenas para uma vida espiritual, se tornou um país estagnado e desfasado culturalmente, conforme podemos constatar na actualidade.

Colectânea Assuntos sobre fé, 5 de setembro de 1948

Vol. 4 pág. 145

 

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