A Defasagem do Estudo – 1ª Parte

Em se tratando de estudo, existe o estudo vivo e o estudo morto. Isso soa estranho, mas vou esclarecer o que isso significa. Estudar por estudar é estudo morto, enquanto que estudar para aplicar na vida real é estudo vivo. O estudo pela busca da Verdade, porém, é algo à parte e muito valioso. Vejamos, em primeiro lugar, o que é estudo.

Actualmente, em todos os níveis da educação escolar, os professores utilizam os livros didáticos como dimensão vertical, e a prática, como dimensão horizontal(52). Esse método de ensino assumiu a configuração actual a partir do resultado de grandes esforços e contínuos melhoramentos realizados por muitos eruditos. Logicamente, novas descobertas e teorias surgiram e desapareceram, foram apresentadas e depois descartadas, preservando-se apenas o que havia de valor nelas. Aquilo que, em outra época, era considerado Verdade e respeitado como regra de ouro, foi desaparecendo sem deixar nenhum vestígio, à medida que apareciam novas teorias e descobertas que o superavam. Existem, contudo, aquelas que se mantêm vivas e continuam sendo úteis à sociedade. Tudo é definido pelo tempo.

Por esse motivo, embora tenhamos plena certeza de que hoje uma teoria seja absolutamente verdadeira, inalterável e eterna, não podemos saber quando aparecerá outra que a suplante nem quem o fará. No entanto, quando aparecem novas descobertas, é natural que elas não se encaixem nos moldes das teorias tradicionais; quanto menos se ajustarem, maior será seu valor. Resumindo, é uma quebra de paradigmas, e quanto maior for esse impacto, maior será o seu valor. Desse modo, se aquilo que pensávamos ser Verdade cair no esquecimento, é porque surgiu outra Verdade superior àquela. É dessa forma que se processa o contínuo desenvolvimento da cultura.

Analisemos mais profundamente. Através dos anos, o ensino tradicional se estruturou até atingir o que, em tese, seria uma forma organizada. Contudo, o rápido avanço da cultura se distancia dessa forma estática com uma velocidade surpreendente. Um dia desses, ouvi do presidente de uma grande empresa o seguinte comentário: “Mesmo que seja muito inteligente, alguém que concluiu a universidade há mais de dez anos, hoje, muitas vezes, não consegue lidar com questões práticas. Isso ocorre devido à grande disparidade entre o conhecimento adquirido naquela época e o momento atual, ou seja, há uma defasagem entre o estudo e o tempo. Isso se dá principalmente entre os técnicos.” Essas palavras vêm ao encontro daquilo que eu explanava, porque, como as teorias têm como base a época em que foram criadas, ao longo do tempo, se não acompanharem o progresso da cultura, desaparecerão. Exemplifiquemos.

Dizem que os políticos actuais se tornaram medíocres, o que significa dizer que é difícil encontrar líderes de grande envergadura. Todo mundo sabe que os atuais ministros de Estado têm capacidade limitada e se mostram ocupadíssimos em resolver os problemas do momento; mas suas verdadeiras intenções são evidentes. Isso ocorre porque, na atualidade, os políticos de nível ministerial são formados pelas universidades federais e deixam-se levar facilmente pelas velhas teorias. Racionais em tudo, eles não sabem que existe algo além da razão. É o mesmo que utilizar carroça numa época em que existem carros, pois só aprenderam a conduzir aquela e não sabem dirigir carros.

30 de janeiro de 1950

Alicerce do Paraíso vol. 1

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