Minha Época de Descrença

Já escrevi que a primeira metade da minha vida foi bem comum, por isso não entrei em detalhes. Posteriormente, ao me dar conta de que não são poucas as passagens que deixei de registrar, gostaria de mencionar alguns assuntos interessantes.

Eu me casei aos 24 anos e a minha esposa tinha 19 anos. Passado pouco mais de um ano, ela foi acometida de tuberculose. Levei-a imediatamente ao médico, que disse: “Como não há tratamento para esta doença, não há outra maneira a não ser mudar-se para um local com ar puro e cuidar-se com paciência.”. Por sorte, como a família dela era de Kanazawa, da província de Kanagawa, o local era apropriado por situar-se no litoral. Contudo, a minha mãe, o meu irmão e até mesmo os parentes me aconselharam insistentemente: “Além do risco de contágio, essa doença será transmitida hereditariamente caso vocês venham a ter filhos (tese daquela época). Portanto, é melhor fazer com que a sua esposa retorne para a casa dos pais.”.

A princípio concordei, mas, pensando bem, não estava convencido. Afinal de contas, se a esposa contraíra matrimônio por uma vida o correcto seria cuidar dela com ainda mais carinho caso fosse acometida por uma doença. Mesmo que exista o perigo de contágio, fazê-la retornar à casa dos pais seria um pensamento demasiadamente calculista e de maneira nenhuma eu conseguiria agir de forma tão insensível. Decidi firmemente no meu coração que, compartilhar dos sofrimentos e alegrias por toda a vida, seria o caminho do casal. Além disso, por felicidade, eu tinha a experiência de ter me curado, e acreditava piamente que ela iria melhorar. E não só isso, surgia em mim a convicção de que o ser humano, desde que esteja no caminho correcto teria motivo para [ser alvo] do contágio.

O surgimento desse raciocínio em uma pessoa descrente como eu era na época, foi algo realmente estranho. Ao ouvir isso, o médico e os meus parentes ficaram atónitos e me consideraram um excêntrico. Dessa maneira, após tornar-me um religioso, compreendi que na época já havia sido plantada a semente da Fé no meu íntimo. Baseando-me na minha experiência, tratei-a com a alimentação vegetariana, e ela curou-se em três ou quatro meses, sem receber tratamento médico.

Houve também o seguinte episódio: Nessa época, havia empregado uma moça de 16 ou 17 anos, vinda do interior. Mas, como ela ficara doente, fiz retorná-la à sua família que reside em Boshu, região sul da província de Tchiba. Depois de algum tempo, repentinamente, ela veio me procurar. Estava com o rosto completamente pálido e, ao indagá-la, respondeu-me que após retornar piorou gradativamente, e foi diagnosticada com uma grave tuberculose. Assim, foi repudiada pelas pessoas ao redor, além disso, como a família era paupérrima, foi considerada um estorvo. Em meio a lágrimas, ela me relatou que ouvira o seguinte: “Vá procurar um emprego.”. Por isso veio a mim. Muito compadecido, eu disse: “É um absurdo trabalhar nesse estado. Volte imediatamente para sua casa. Em contrapartida, enquanto você viver, enviarei, sem falta, dinheiro para a sua alimentação e o tratamento.” E ela foi-se embora contente. Lembro-me que enviava mensalmente 15 ienes, que na época era o suficiente.

É claro que existem pessoas caridosas mundo afora, mas relato esse episódio, porque tenho algo a escrever sobre ele. Isto é, na época, meus parentes e conhecidos diziam frequentemente: “Se a tuberculose dessa moça tivesse possibilidade de melhora, tudo bem, mas desse jeito, é evidente que vai morrer. Qual o sentido em ajudar uma pessoa que está fadada a morte? Se ela melhorasse e depois pudesse trabalhar para retribuir o benefício, tudo bem, mas do contrário, está apenas desperdiçando dinheiro. Não há sentido nisso. Seria mais inteligente que parasse logo.”. Assim insistiam.

Então eu disse-lhes: “Eu não tenho intuito nenhum de fazer o bem para receber recompensa. Cuidar do próximo esperando retribuição seria um tipo de negociação como uma troca de favores. Isso não seria piedade nem nada. Seria apenas um interesseiro aparentando ser uma pessoa virtuosa. Eu faço isso apenas porque não pude ficar indiferente à penosa situação da jovem. Ou seja, é espontâneo. Sinto-me satisfeito assim. Não é o bastante? Gostaria que vocês não interferissem nisso! Do vosso ponto de vista, posso parecer um tolo, mas não me importo.”. Aconteceu que, como falei dessa maneira, todos ficaram perplexos e se calaram.

Nessa época, eu era totalmente descrente. Apesar de ser um materialista ferrenho, o meu modo de pensar era semelhante ao de uma pessoa possuidora de fé. Portanto, embora na aparência eu fosse descrente, no fundo, eu era uma pessoa de fé.

 

[1]Texto constante da primeira edição japonesa do livro Keigyo (Reminiscências sobre

Meishu-Sama), em 23 de dezembro de 1965.

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